Conferência Episcopal de Moçambique
Nota Pastoral dos Bispos Católicos de Moçambique
sobre a Reconciliação e Esperança: Caminho para a Paz e Unidade
«Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por Cristo
e nos confiou o ministério da reconciliação» (2 Cor 5,18)
Às comunidades cristãs e todos os homens e mulheres de boa vontade,
A paz e a unidade são anseios profundos que brotam do coração de cada moçambicano. A nossa nação, marcada por desafios históricos, percorreu um longo caminho rumo à liberdade e à construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Após décadas de luta pela independência e os sofrimentos causados pela guerra civil e pelas consequentes dificuldades socioeconómicas, Moçambique deve continuar a buscar caminhos de reconciliação e renovação.
Neste momento especial em que celebramos os 50 anos de independência, a Igreja Católica vive o Jubileu ordinário dos 2025 anos de nascimento de Jesus Cristo, que é um tempo de graça no qual somos convidados à transformação dos corações e à esperança. Ao celebrarmos o jubileu da independência, somos convidados a ver este marco não apenas como uma lembrança do passado, mas como o início de uma nova era construída sobre os alicerces da fraternidade e da paz.
Esta nota pastoral pretende ser uma mensagem de esperança e um compromisso para a cura das feridas do passado e para a construção de um futuro de paz no nosso país. Tomemos a consciência de que somos chamados a ser sinal de reconciliação (cf. 2Cor 5,18).
Na Carta encíclica Fratelli Tutti (FT n. 77), o Papa Francisco nos lembra que a reconciliação é um dos maiores dons que podemos oferecer uns aos outros. Mas essa reconciliação só é possível quando existe um verdadeiro empenho na promoção da justiça, perdão e restauração das relações. Em Moçambique, a reconciliação não deve ser apenas uma ideia, mas um trabalho contínuo, construído nas pequenas acções de cada um de nós, pela verdade e pelo perdão.
1. Memórias de dor e o convite à reconciliação em Moçambique
Ao longo da sua história, Moçambique enfrentou momentos de grande dor e sofrimento que deixaram marcas profundas na sua identidade como nação. As feridas causadas pelos vários conflitos ainda estão presentes na vida de muitos moçambicanos e exigem um compromisso verdadeiro com a cura e a reconciliação.
Moçambique carrega cicatrizes profundas de sua história antiga e recente. A luta pela independência, que durou uma década, e a subsequente guerra civil, que devastou o país por dezasseis anos, deixaram marca indelével de amarguras e sofrimento nas comunidades. Milhares de vidas foram perdidas e muitas famílias ainda sentem a dor da perda de entes queridos, das divisões e das injustiças que marcaram os conflitos.
Após a assinatura dos Acordos de Paz em 1992, surgiram novos conflitos e violências, sinal de que as causas e as consequências dos anos de guerra não desapareceram definitivamente. A insurgência em Cabo Delegado e a recente violência pós-eleitoral são testemunho disso. A reconstrução do tecido social e a restauração da confiança entre os moçambicanos são desafios permanentes, exigindo de todos nós um olhar atento para o passado e um esforço conjunto para um futuro baseado na justiça, no perdão e numa convivência fraterna.
2. O nosso compromisso com a reconciliação
A história de Moçambique está marcada por desafios imensos, que ainda persistem no presente. Desde a luta pela independência, que uniu o povo contra um inimigo comum (o colonialismo português), até à guerra civil que, entre 1976 e 1992, dividiu o país e semeou profundas feridas na sociedade, há hoje a necessidade de reconhecer e curar estas chagas ainda abertas, um processo de reconciliação urgente e inadiável.
Estes conflitos deixaram rastos de dor e cicatrizes que persistem em forma de desigualdades sociais, injustiças e falta de verdade. A paz não se limita à ausência de guerra, mas exige um compromisso firme com a justiça e a dignidade de todos.
Os Bispos Católicos de Moçambique têm desempenhado um papel profético ao denunciar os males e ao apelar à construção de uma paz verdadeira. Desde 1982, quando pela Carta Pastoral “Um Apelo à Paz” alertavam para os efeitos devastadores da violência da guerra, até ao momento presente, o apelo à unidade e à reconciliação permanece uma constante da nossa intervenção cívica e moral.
A Igreja Católica, além dos seus pronunciamentos através do testemunho comunitário e dos espaços de acolhimento, tem promovido momentos de perdão e celebrações jubilares que fortalecem o caminho da paz e reconciliação.
Apesar dos avanços alcançados, a reconciliação completa exige um esforço contínuo para curar as feridas e traumas sociais. As vítimas da guerra, as populações deslocadas, as famílias que perderam seus entes queridos e os empobrecidos ainda aguardam por um processo mais profundo de reparação e de justiça. Este momento histórico exige que, como nação e indivíduos, deixemos para trás atitudes que alimentam divisões, e abramos as portas para uma transformação genuína, iniciando um novo percurso pautado pela fraternidade, pela verdade, pela justiça, pelo bem comum e pelos valores democráticos.
3. A sabedoria africana é um dos pilares inspiradores da reconciliação
A sabedoria africana tem, na reconciliação, um dos seus ensinamentos fundamentais, pois valoriza a harmonia, a convivência e o perdão como caminhos para restaurar a dignidade humana. Em Moçambique, como em outras culturas africanas, os provérbios orientam a vida comunitária e reflectem a necessidade de reconhecer os erros do passado para construir um futuro de paz.
Diz-se que “a água que corre não se esquece da fonte”, para lembrar que a reconciliação exige memória e compromisso com a restauração das relações. Assim como “o sol não se esconde para sempre”, mesmo após períodos de conflito e injustiça, há sempre a esperança de renovação e cura.
A reconciliação, enraizada na tradição e na espiritualidade africana, exige mais do que palavras: pede acções concretas que curem as feridas e reconstruam os laços sociais. À luz da sabedoria africana, a transformação social passa pela consciência de que cada gesto de reconciliação é um passo na construção de uma sociedade mais justa, fraterna e renovada.
4. A escuta, primeiro passo da reconciliação e a verdade como fundamento
A reconciliação é dom de Deus e um compromisso humano, mas para que aconteça de forma autêntica, é necessário primeiro escutar. Sem escuta, não há compreensão; sem compreensão, não há transformação. A escuta é o caminho que nos permite acolher o outro, reconhecer as feridas e iniciar um processo genuíno de cura.
A escuta verdadeira só ocorre quando há transparência e disposição para aceitar a realidade como ela é. Não basta ouvir; é preciso compreender, valorizar as experiências e respeitar as narrativas que, por muito tempo, foram silenciadas.
Como filhos da nação moçambicana, somos chamados a cultivar espaços de escuta verdadeira. Uma escuta profunda permite que as feridas sejam tratadas, que a verdade seja dita sem medo e que o perdão aconteça sem reservas. Somente assim a reconciliação pode ser vivida de maneira plena, abrindo caminhos para uma paz duradoura e fortalecendo os laços da fraternidade.
A verdade é o alicerce sobre o qual se constrói qualquer diálogo autêntico e transformador. Sem verdade, a escuta perde sua profundidade, tornando-se superficial e incapaz de gerar mudanças reais. A reconciliação exige coragem para reconhecer erros, injustiças e feridas históricas, permitindo que a luz da verdade ilumine os caminhos do entendimento mútuo. Somente quando a verdade é assumida com sinceridade é possível dar início a um processo de cura genuíno e duradouro de cura.
Somente através da verdade pode-se estabelecer a confiança necessária para a reconciliação. Quando nos comprometemos com um diálogo honesto, livre de máscaras e interesses ocultos, tornarmo-nos capazes de curar divisões e construir pontes de paz. A reconciliação não se impõe, constrói-se sobre a transparência, o respeito e o desejo de restaurar vínculos rompidos pelo tempo e pela dor. A verdade, quando assumida sem medo, transforma os corações, sustenta a esperança de um futuro mais harmonioso e fraterno, ajuda-nos a desenvolver o nosso país.
5. Os jovens, protagonistas na construção da reconciliação e da paz
A juventude, que constitui a maioria da população moçambicana, é um pilar incontornável na construção da paz e na reconstrução nacional. Carregando consigo os sonhos e a energia para transformar a sociedade, os jovens são protagonistas fundamentais na promoção da esperança e da renovação. Muitos jovens enfrentam cicatrizes profundas deixadas pela violência e pelas dificuldades
socioeconómicas, mas, apesar dos desafios, demonstram uma capacidade extraordinária de resiliência e compromisso com um futuro próspero.
O papel da juventude na pacificação do nosso país vai além da superação individual das adversidades; eles são agentes de mudança que impulsionam iniciativas comunitárias, promovem o diálogo e defendem valores de justiça, solidariedade e respeito mútuo. Nas escolas, nas universidades, nos grupos culturais e nas redes sociais, os jovens têm a possibilidade de exercer uma influência determinante na construção de uma convivência harmoniosa, questionando desigualdades e propondo
soluções inovadoras para uma sociedade mais inclusiva.
As instituições, as comunidades e os líderes têm a responsabilidade de apoiar a juventude, investindo na educação, no emprego digno e na participação cívica. Quando os jovens encontram oportunidades para se expressar e agir de forma positiva, tornam-se verdadeiros protagonistas da reconciliação, carregando a bandeira da paz e tomando-a uma realidade concreta em cada canto do país.
6. A importância da educação para a paz e a reconciliação
A educação, a todos os níveis, é um pilar importante na consolidação da paz e na abertura ao diálogo e à prática da reconciliação.
Nestes 50 anos de independência nacional, a educação deu passos significativos em Moçambique, com o acesso garantido à alfabetização e escolarização da maior parte da população. Todavia, a educação hoje enferma de males que se vão consolidado com os anos, sobretudo a sua fraca qualidade por deficiências de vário tipo e responsabilidades partilhadas.
Aliado a isso, há também um défice de formação e educação a nível familiar e social, que leva em muitos casos à perda de valores morais, o desrespeito da lei, o recurso à violência em situações de crise e à perda do sentido do bem comum.
A educação encontra na escola um lugar importante para tecer laços de paz e harmonia na sociedade, através da formação aos valores e ao respeito do bem comum. O que se semeia na escola, em muitos aspectos, os seus frutos vão ser colhidos na vida da pessoa, na sua personalidade, nos seus valores, e no contributo que isso traz para a sociedade.
Reafirmamos mais uma vez que a educação moral e ética no seio da escola, pública ou privada, dá um importante contributo para a construção da justiça, paz e reconciliação.
7. Rumo ao futuro: compromissos concretos para a paz e a esperança
Para que Moçambique percorra um caminho marcado pela reconciliação e esperança, é essencial assumir compromissos concretos que fortaleçam a paz, a verdade e a justiça social. A reconciliação exige acções diárias, sustentadas por princípios que promovam a dignidade humana e a unidade nacional.
A reconciliação deve ser vivida como um compromisso contínuo, onde as diferenças são resolvidas com justiça e respeito mútuo. O perdão abre caminhos para uma convivência mais pacífica e construtiva.
A paz verdadeira só se concretiza quando há justiça para todos. É necessário reduzir desigualdades e garantir que cada moçambicano tenha acesso a oportunidades dignas, e melhores condições de vida.
A dignidade das vítimas deve ser restaurada, promovendo um ambiente onde todos se sintam respeitados e valorizados. A reconciliação exige acolhimento recíproco e o cuidado para todos os que foram envolvidos em conflitos e violências para que contribuam na vida da sociedade.
Diante dos desafios actuais, convidamos todos a promoverem uma cultura genuína de diálogo e reconciliação. O compromisso com a verdade e a justiça permitirá superar divisões e construir um futuro de paz e esperança para o nosso belo Moçambique.
8. Conclusão
Somos todos chamados a ser artífices da esperança, da paz e da reconciliação. Independentemente da nossa condição social, crença religiosa ou filiação partidária, cada um de nós carrega a responsabilidade de construir um futuro onde o perdão vença o rancor, onde a verdade ilumine os caminhos da justiça e onde o amor seja a base da convivência fraterna.
Os nossos lares, escolas, comunidades, devem ser espaços de escuta e diálogo, onde aprendemos a reconhecer o outro como irmão e a trabalhar juntos pela dignidade e pelo bem comum. A reconciliação não pode permanecer apenas nas palavras e em acordos que ficam só no papel; deve traduzir-se, sim, em gestos concretos que curem feridas e fortaleçam os laços que nos unem.
Por isso, apelamos a todos e cada um para que, com coragem e determinação, se torne um construtor da esperança.
Que Maria, a Mãe de Jesus, Rainha da Paz, interceda pelo nosso povo, e que o Espírito Santo nos guie neste caminho de reconciliação e unidade, para que com fé e perseverança, possamos transformar Moçambique num país mais inclusivo, próspero, justo e pacífico.
Gurúè, 9 de Maio de 2025
Dom Inácio Saure, IMG
Arcebispo de Nampula
Presidente da Conferência Episcopal de Moçambique