Pregação do Núncio Apostólico, Dom Luís Miguel Muñoz na cerimónia do funeral eclesiástico de Dom Osório Citora Afonso

A Sé Catedral de Quelimane acolheu na manhã desta sexta-feira, 12 de Junho, a cerimónia do funeral eclesiástico de Dom Osório Citora Afonso, Bispo de Quelimane, Administrador Apostólico da Arquidiocese da Beira e Secretário-Geral da Conferência Episcopal de Moçambique (CEM), cujos membros concelebraram a missa, presidida por Dom Inácio Saúre, com a pregação do Núncio Apostólico, Dom Luís Miguel Muñoz.

 

Diante do corpo baleado do nosso irmão, do nosso Dom Osório Citora Afonso, com que força, com que intensidade, com que verdade ressoam as palavras proféticas de Jesus no Evangelho. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos céus. Bem-aventurados sereis quando, por minha causa, os insultarem, os perseguirem. Alegre-vos e exulte-vos, porque grande nos céus a vossa recompensa.

Queridos irmãos bispos do Moçambique, Sua Excelência a Presidente da Assembleia da República Daniel Chapo, a Primeira-Dama, Sua Excelência presidente da Assembleia da República, Sua Excelência Membro do Conselho de Estado, Suas Excelências a Ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação e o Ministro da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos, prezadas todas autoridades estatais, provinciais e locais, caros sacerdotes, queridos superior provincial e missionários da Consolata, queridas irmãs religiosas, queridos fiéis, homens e mulheres de Quelimane, mas também de Beira, de Maputo, de Nampula e de tantos outros lugares de Moçambique, especialmente vós, muito queridos familiares de Dom Osório, sua mãe, Nampula, os seus irmãos e os membros da família Citora Afonso.

Hoje não teríamos que estar aqui. Hoje não deveríamos estar a realizar este funeral. O que aconteceu nunca, nunca deveria ter acontecido. Foi um erro muito grave. Nunca antes na história de Moçambique um bispo foi assassinado. A notícia da terrível e violenta morte de Don Osório deixou-nos a todos em choque.

Se a morte de um jovem por causas naturais nos choca, quanto mais um homicídio injusto e covarde . O bispo que o Papa Leão XIV enviou a esta bela terra de Zambésia há menos de um ano e que entrou nesta mesma catedral sorridente e feliz no dia 31 de agosto do ano passado, já agora, sem vida, no meio do seu povo, do seu rebanho. Em nome da Santa Sé, a Igreja Católica de Moçambique gostaria de expressar a minha gratidão pelo apoio, interesse demonstrado por Sua Excelência, o Presidente da República, bem como pelas diversas autoridades nacionais, locais, pela polícia e pelas equipas médicas em investigação nos seus esforços para esclarecer o sucedido.

É bom e necessário esclarecer o que passou. É bom conhecer com certeza todos os motivos subjacentes a esta morte violenta, por mais dolorosos que sejam. Não devemos ter medo à verdade. Não devemos ter medo à verdade. A verdade liberta-nos. A verdade promove a justiça.

Mas a verdadeira justiça leva-nos, como discípulos de Jesus Cristo, a rejeitar a vingança e a cultivar, para além da necessária e justa reparação penal, a cultivar, pouco a pouco, nos nossos corações, o espírito de perdão e reconciliação.

Queridos irmãos, queridas irmãs, D. Osório foi um pastor de coração grande, de convicções profundas, de discurso firme e corajoso e de uma humanidade alegre e cativante. Dadas as suas muitas qualidades pessoais e pastorais, depois de ter servido como bispo auxiliar de Maputo, o Papa nomeou bispo desta diocese de Quelimane e também Administrador Apostólico da Arquidiocese da Beira.

O prestígio de que merecidamente gozava entre os seus irmãos bispos aqui presentes levou a sua eleição como secretário-geral da Conferência Episcopal. Tudo isto significa que D. Osório tinha muito trabalho, talvez até demasiado. Eu costumava brincar com ele, dizendo que fazia três trabalhos, mas recebia apenas um salário. Ele sempre ria-se muito.

D. Osório foi um bom amigo para mim, foi um bom amigo para mim, tal como foi para muitos de vós. O que mais me edificou e confortou nesses últimos dias terríveis foi ir descobrindo como viveu e o que fez nas últimas horas antes de morrer.

No próprio dia em que morreu, fez uma visita pastoral. Nessa noite, de regresso ao Paço Episcopal, tratou de assuntos pastorais e telefonou à Beira para acompanhar a situação na Arquidiocese que lhe foi confiada. Muitos de nós vimos um vídeo circular nas redes sociais onde Dom Osório, poucas horas antes de ser baleado, falava de paz, respeito, diálogo e tolerância entre todos os moçambicanos.

Assassinaram um homem de paz, assassinaram um homem de reconciliação, um missionário que acreditava na bondade das pessoas, um pastor dedicado que se entregou por completo ao serviço até o fim.
Caros, fiéis, e pessoas todas de boa vontade, a morte violenta de D. Osório, como tantas outras mortes violentas no nosso mundo de hoje, é uma falha da humanidade. Uma falha da humanidade!

Perante os restos mortais do Bispo de Quelimane, devemos reconhecer com tristeza que falhamos de novo. Falhamos de novo! Hoje, Caim matou novamente o seu irmão Abel. Hoje, o homem é lobo para o próprio homem. Mais uma vez, violência entre irmãos. Recentemente, o Papa Leão XIV, falando sobre o valor da vida, colocou uma questão, o Papa.

Se a vida deixar de ser reconhecida como um valor fundamental, que futuro podem ter as nossas sociedades? A defesa da vida humana não é uma questão parcial, é uma meta de civilização.

Irmãos, irmãs, o sangue de D. Osório uniu-se ao sangue de tantas e tantas, mesmo muitas, pessoas inocentes em todo o mundo, vítimas da injustiça, da guerra, da violência, da inveja, da corrupção, do terrorismo. No nosso mundo, há sangue a mais, dor a mais, lágrimas a mais!

Perante tanto mal, hoje, devemos exclamar: Basta! Basta! Queremos um mundo melhor, uma sociedade diferente. Amamos a vida, amamos a fraternidade, amamos a paz!

Mas como podemos conseguir isso? Como podemos construir esta nova civilização do amor, onde o homem não é um lobo e não mata o seu irmão? Nós, cristãos, como discípulos do inocente crucificado, conhecemos bem a resposta. A resposta é Jesus Cristo! Sim, Jesus Cristo, que venceu o mal com o bem, que derrotou o pecado e a morte com o amor. Amor até o sacrifício e por isso, por isso ressuscitou.

Quantas vezes o Papa João Paulo II repetiu aos jovens, tantas vezes, jovens de todo o mundo, tantas vezes, o Papa Santo gostava de repetir a máxima de São Paulo, que hoje aqui foi proclamada. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Vence o mal! Vençamos o mal com o bem! O Papa Santo dirigiu-se aos jovens com palavras que são hoje mais relevantes e necessárias do que nunca, e que eu dirijo a todos vós e também a mim próprio.

Estava a dizer o Papa Santo: Quando sabeis ser dignamente simples num mundo que paga qualquer preço pelo poder, quando construís a paz num mundo de violência e de guerra, quando lutais pela justiça perante a exploração do homem pelo homem, quando a misericórdia generosa não procurais a vingança, mas chegais a amar o inimigo, quando no meio do sofrimento e das dificuldades não perdeis a esperança e a constância no bem, então, então, convertirei-vos em transformadores eficazes e radicais do mundo, convertirei-vos em construtores da nova civilização do amor.

Queridos irmãos, queridas irmãs, o sangue derramado por Dom Osório tem banhado a Diocese de Quelimane, o sangue de Dom Osório tem banhado a Igreja de Moçambique. Não podemos permitir que este sangue inocente nos afogue no pessimismo, na desilusão pura.

Não! Agora é o tempo da conversão profunda, da penitência purificadora, penitência purificadora, da renovação interior. Que o sangue do Bispo Osório nos torne melhores, arranque o pecado de nós e nos converta do mal para o bem, das trevas para a luz. Então, a morte de Dom Osório será fecunda e frutífera, purificará esta diocese de Quelimane e a Igreja e nos tornará todos melhores.

Então, repetir-se-á a vitória do inocente Jesus imolado na cruz pelo mal e será renovada a vitória de Cristo ressuscitado. E então, lembrando no futuro, no futuro, as futuras gerações de Don Osório, poderemos dizer, inspirados pela famosa máxima de Tertuliano, que aqui em Moçambique também o sangue derramado dos bons pastores é a semente de novos cristais, de cristais bons e santos. Tenho a certeza, tenho a certeza de que esta morte cruel não será em vão.

Creio que Deus, em sua santa e misteriosa providência, conseguirá transformar tanto mal em bem e escreverá reto em linhas tortas. Creio que haverá um antes e um depois deste crime. O sangue de Dom Osório será a semente de uma diocese de Quelimane melhor, purificada, renovada de uma Igreja melhor em Moçambique e, portanto, também de uma sociedade melhor.

Rezemos, rezemos para que a trágica morte deste corajoso entusiasta bispo, bispo missionário, fiel filho espiritual de São José Alamano, traga graça e bênção a Moçambique, purifique e torne mais credível o testemunho da Igreja e obtenha do céu paz e reconciliação onde há violência e conflito. Invoquemos agora a intercessão da Santíssima Virgem Maria, Nossa Mãe, Nossa Senhora do Livramento aqui em Quelimane, Nossa Senhora Rainha dos Mártires, Nossa Senhora Consoladora dos Aflitos, para que Ela, Maria, console aqueles que hoje choram a morte de Dom Osório, principalmente a mãe dele, a mãe dele. E obtenha para sua grande alma, o alma grande de Dom Osório, o repouso eterno no coração de Deus.

Estou certo, estou certo de que Don Osório morreu perdoando, perdoando os seus agressores, estou certo! Talvez em seus últimos suspiros, antes de expirar, ele sentiu-se confortado ao saber que, apesar da sua jovem idade, dedicou os melhores anos da sua vida, os melhores anos da sua vida, a proclamar a Glória de Cristo às nações, proclamar a Glória de Cristo às nações, que é o lema dos missionários da Consolata.

A ti, Jesus Cristo, Rei Vitorioso, a ti, Jesus Cristo, Príncipe da Paz, confiamos a alma do nosso irmão Osório enquanto clamamos com esperança: “Bem-aventurado aquele que ama e confia no Senhor, pois não será decepcionado, mas sua recompensa será grande nos céus”.

Assim seja. Amém. Amém. Aleluia.